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- Quarto não familiar

Quarto não familiar

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Letícia acordou. Mantendo os olhos ainda fechados, sentiu um desconfortável formigamento apoderando-se de suas costas. Estava deitada na mesma posição por tempo demais. Pendeu para o lado esquerdo, ajeitando-se em sua posição de dormir favorita. Afundou o lado do rosto no travesseiro, mas algo não parecia certo. A textura do travesseiro não lhe parecia familiar; e o perfume do ambiente também não. Abriu os olhos.

- Mas, o que... Onde estou?

O quarto estava na penumbra e cheirava a limpeza. Os suaves raios de luz que atravessavam as frestas da janela fizeram-na deduzir que era dia. Movimentou os olhos, estudando o ambiente.

- Que lugar é esse?

Paredes brancas, assim como o piso. Ao lado da cama, um criado-mudo de mogno enfeitado com um pequeno vaso de flores amarelas. Na parede em sua frente, haviam duas portas, também inteiramente brancas: uma aberta, e a outra fechada. A porta que estava aberta revelava um banheiro compacto. No meio, entre uma porta e outra, uma poltrona de estofado encostada na parede.

Isso é um hospital? Mexeu o pescoço. Sentiu uma atadura áspera envolvendo o topo de sua cabeça. Levou a mão direita para investigar o curativo, e arregalou os olhos ao perceber o braço pesado, rígido, envolto em uma grossa camada de gesso. O coração acelerou.

Aí vieram as dores. Primeiro no braço, depois na cabeça, nas costelas. Novas dores iam aparecendo conforme ela ganhava consciência de seus próprios ferimentos. Não dava para contar. Eram vários, espalhados da cabeça aos pés.

Uma atadura dava voltas em torno do topo de sua cabeça, fixando espessos curativos na têmpora direita. O braço direito estava engessado do punho até depois do cotovelo, impedindo-a de dobrar o braço. Um lençol branco a cobria da barriga para baixo. Movimentou apreensivamente os dedos dos pés, e não pôde deixar de sentir um alívio ao confirmar que não estava paralisada, mas uma dor forte a impedia de movimentar a perna esquerda. Estaria quebrada? Examinou o quarto uma segunda vez. Não havia ninguém a quem pudesse fazer perguntas. Como eu vim parar aqui? O que aconteceu? Forçou a memória o quanto pôde. Doía até para pensar.

Então, a lembrança veio.

Letícia viu-se no chão de um posto de gasolina. Estava caída de bruços. Podia sentir os estilhaços de vidro em baixo de si, arranhando o solo ao menor sinal de seus movimentos e abrindo-lhe uma infinidade de pequenos cortes pelo corpo, especialmente em pontos desprotegidos pelos diversos rasgos de suas roupas. O cheiro quente de borracha queimada. Um forte zumbido em seus dois ouvidos abafava as diversas vozes que gritavam de pânico a sua volta. Alguma coisa explodiu? Não viu fogo em parte alguma.

Havia pelo menos dois carros capotados nas proximidades. Reconheceu um deles: o carro de sua irmã. Estava com as rodas para cima, bem ao seu lado. Poderia tocá-lo se esticasse o braço. A lataria estava inteira amassada, o cheiro de óleo se misturava ao de gasolina, queimando-lhe as narinas. Pedestres andavam trêmulos e desolados, tropeçando nos destroços retorcidos das ferragens sem que soubessem ao certo para onde ir. Fitavam o cenário ao redor, calculando a dimensão do estrago. Ouviu alguém gritar para que chamassem uma ambulância. Engoliu com força o reflexo do vômito que ameaçou sair, e fez uma careta suportando o sabor azedo que impregnou o fundo da garganta.

Ergueu a cabeça e conseguiu enxergar um corpo caído de lado em sua frente, a poucos metros de distância. Era um corpo feminino, virado de costas para ela. Estava imóvel, desengonçado, sobre uma enorme poça de sangue.

Lembrou-se de ter gritado o nome da irmã, forçando a vista em busca de alguma reação, um movimento, qualquer coisa.

- Débora! Débora! - Nada. A barriga dela não se movia nem um centímetro. Ela não está respirando!

Esticou o braço direito na direção do corpo, e com horror encontrou duas lascas pontiagudas de seus ossos rompendo a pele do antebraço. A mão pendia na extremidade, mole como borracha. Não conseguia sentir dor, nem no braço, nem em qualquer lugar do corpo. Ouviu alguém se aproximando, o som crocante dos cacos de vidro a cada passada. Sua vista escureceu.

Published at : 12-01-2018
Category : Short story