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- Se a chuva fosse mais silenciosa

Se a chuva fosse mais silenciosa

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Conheci Isabela na adolescência. Quando cursava o ensino médio, então com 16 anos de idade, eu já havia aproveitado incontáveis momentos românticos ao seu lado. Longos beijos carinhosos, trocas de olhares apaixonados que arrepiavam os pelos do braço e da nuca. Carícias delicadas no rosto, enquanto eu a envolvia nos braços em um gesto protetor, quase paternal. Isso acontecia geralmente depois que eu a salvava das garras da morte durante um ataque terrorista na escola, ou depois de pular heroicamente levando um tiro em seu lugar. Tudo na minha imaginação, naturalmente. Na vida real, eu ainda não havia juntado coragem suficiente para dar-lhe 'bom dia', quanto menos de protegê-la bravamente do bullying de alunos mais fortes do que eu.

Não que ela precisasse de qualquer proteção minha. Na verdade, aquela garota era tão idolatrada que devia sofrer bullying com a mesma frequência com que a nossa escola era atacada por grupos terroristas.

Não havia qualquer um que não gostasse daquela menina. E ela também parecia gostar de todo mundo - não se enquadrava no esteriótipo de garota popular/esnobe. Cumprimentava as faxineiras pelo nome, continuava assuntos da semana passada. "Seu filho está melhor da gripe? Como foi a viagem ao litoral?". Tratava cada um com sua impecável receptividade. Até mesmo o Daniel, o obeso mórbido de óculos de fundo de garrafa que, mesmo nos dias frios, cheirava a suor - e que gaguejava enquanto tentava exibir suas limitadas habilidades com o ioiô.

Eu ainda não tinha conversado com Isabela pela primeira vez quando percebi que a amava. E não era só por causa do jeito acolhedor e cheio de energia. Também não era só por causa de sua beleza - e, meu Deus, como ela era linda! - mas quando ela me fazia fechar os olhos ao passar por mim nos corredores com seu perfume floral, eu tinha certeza de que havia algo a mais. Algo além dos motivos óbvios que levavam todos os garotos a se acotovelarem em sua volta numa disputa por atenção quase desleal. Eu podia jurar que o meu sentimento permaneceria o mesmo, ainda que um dia ela perdesse todas as suas qualidades.

Estudávamos em uma bela escola particular. Do lado de fora, uma fachada impecável exibia pilares monumentais que enfeitavam a escadaria de mármore da entrada no sol que já brilhava quente, desde as primeiras horas da manhã. Seu interior, dominado por adolescentes de narizes empinados, apresentava a temperatura mais amena, paredes de tijolos a mostra pelos labirintos de corredores, sempre movimentados.

Eu não era nem de perto tão corajoso quanto gostaria de ser. Hesitava repetidamente até finalmente desistir de iniciar um diálogo com alguém que eu não conhecia, e os dois anos em que estudei e pratiquei arduamente nas aulas de teatro, de nada pareciam adiantar para amenizar o embrulho no estômago e o aperto na garganta sempre que eu era obrigado a falar em público.

Silencioso e distante, eu observava as interações sociais dos meus colegas, invejando a naturalidade com que trocavam toques, gesticulavam com espontaneidade, faziam novos amigos. Nem mesmo a personalidade amigável e receptiva de Isabela era o suficiente para acalmar meus nervos e me incentivar a arriscar uma aproximação. Não que eu não gostasse das pessoas. Acontece que geralmente, meus pensamentos me pareciam mais interessantes do que a maioria das coisas que aconteciam ao meu redor. Exceto quando se tratava de Isabela.

Ela tinha longos cabelos negros, levemente ondulados. Sobrancelhas espessas e expressivos olhos azuis, que pareciam sorrir sempre junto com a boca, inundando seu rosto branco com uma alegria contagiante. Era filha da Dona Cidinha, uma professora de matemática gorducha e mal humorada que ministrava aulas de matemática naquela mesma escola. Dona Cidinha usava cabelos até a altura dos ombros, que escondiam uma falha em sua orelha direita.

- Perdi parte da orelha em um acidente de carro - Ela explicava, depois de aguentar as perguntas insistentes de algum aluno mais indelicado.

Eu estava sentado nos frios degraus de mármore da escadaria do colégio, mergulhado no vasto universo dos meus próprios pensamentos quando Isabela falou comigo pela primeira vez. A aula já havia terminado naquele dia, e eu aguardava a chegada do meu pai, que tinha o hábito me buscar de carro.

- E você, Renan?

- ...Como? - Perguntei, abandonando meus devaneios.

Isabela estava sentada no mesmo degrau que eu, a apenas um metro de distância. Um grupo de três ou quatro alunos a rodeavam. É claro que eu já havia notado a presença deles, que já tagarelavam há alguns minutos. Mas eu nunca esperava ser envolvido na conversa, porque os outros integrantes da roda não eram amigáveis como ela.

- E você, Renan - Isabela repetiu. - de que tipo de música gosta?

- Ah... Eu não sei - eu disse, querendo me esconder dos olhares dos outros alunos - acho que nunca pensei nisso.

Os meninos do grupo riram. Abri um sorriso amarelo e olhei para o chão, fingindo não ligar para as piadas que se seguiram. Isabela também riu, mas sem arrogância. Depois, repousou a mão delicada sobre o meu ombro.

- Não liga pra eles - disse, com uma expressão meiga.

Acho que ela se sentiu culpada pela forma com eles me trataram. Eles voltaram a se falar. 'Melhor prestar atenção na conversa. Talvez me perguntem algo novamente', pensei. Mas meu nome não foi chamado novamente, e meu pai logo chegava para me buscar.

Ajeitei minha mochila no ombro e me senti patético quando me dei conta de que precisava juntar coragem simplesmente para me despedir. 'Vamos, é só uma palavra, seu idiota. Não seja covarde! É só falar "tchau!".' Meu coração disparou, a palavra só desentalou da minha garganta com muito custo. Saiu numa voz baixa, trêmula, que achei que ninguém fosse ouvir. Isabela respondeu com um aceno e um sorriso, tão gentil quanto lhe era possível, aliviando de imediato a minha tensão.

Isso aconteceu numa sexta-feira, de modo que eu só a veria novamente na segunda. É lógico que eu passei o final de semana inteiro deitado na cama, olhando para o teto, as mãos em baixo do travesseiro enquanto eu revivia aquela cena. Não acho que ela tenha qualquer interesse por mim. Claro que não! Por que teria? Deve ter pensado "Coitado, esse daí precisa de ajuda até pra se enturmar". E outra: ela é simpática com todo mundo, comigo não foi diferente. Mas por quê, então, ela tomaria a iniciativa de conversar comigo? Se ela tem toda a atenção voltada para ela, por quê decidiu se aproximar de mim? Talvez queira me conhecer. Ou será que sentiu pena, ao me ver isolado? - E foi assim que, pela primeira vez, eu nem sequer lembrei que meu vídeo-game existia.

Quando a segunda-feira chegou, eu sorri todas vezes que ela passou perto de mim nos abarrotados corredores de 'tijolos-a-mostra' da escola. Me esticava na ponta dos pés, num esforço para me destacar entre a multidão de alunos uniformizados a minha volta. Eu só precisava de uma rápida troca de olhares. Desta vez - prometi - eu não hesitaria nem por uma fração de segundo, e o meu "Oi!" soaria natural e confiante. Eu havia ensaiado por mais de uma hora na frente do espelho.

Mas nossos olhares não se cruzaram em nenhum momento durante os intervalos das aulas. Os outros estudantes a sua volta, garotos, na grande maioria, pegavam pesado na disputa por sua atenção. Quando a aula terminou, a escadaria da saída ficou lotada, como de costume. Conferi duas vezes, mas Isabela não estava lá. Meu pai estava demorando para chegar. Já passara do meio dia, e o calor aumentava minha sede na medida que o carros paravam, deixando a escadaria mais e mais vazia. Entrei novamente pelo corredor da escola, andei até encontrar um bebedouro com água decentemente gelada. Quando voltei para a saída, lá estava ela. Estava sentada em um dos degraus da escada, e para o meu alívio, desta vez não havia o menor sinal da manada de acotoveladores arrogantes.

Sentei a três metros de distância dela tentando parecer distraído. Eu usava fones de ouvido que, na verdade, não tocavam música nenhuma. Ela parecia concentrada, estava lendo um livro. Muito bem, é agora ou nunca. Respirei fundo, tirei os fones de ouvido, olhei nos olhos dela, e... Empaquei. A palavra não saiu. Isso porque, na minha cabeça, o plano era cumprimentá-la na minha postura mais confiante, e logo depois sumir na multidão do corredor. Esqueci de praticar o resto do diálogo - e agora era tarde demais. Isabela já havia largado o livro, e direcionava seu olhar curioso para a minha expressão de pânico.

- Oi! - Ela disse.

- Led Zeppelin. - respondi, e franzi a testa amaldiçoando minha própria estupidez.

- O que?

- O que? - Perguntei, também.

Ela ficou calada por um momento. Uma expressão séria, me encarando sem piscar, a boca entreaberta. Depois, relaxou as maçãs do rosto e começou a rir. Só um pouquinho, no começo, mas logo se contagiava cada vez mais com o próprio riso. Uma risada gostosa, que aos poucos curava minha tremedeira.

- Você está respondendo à pergunta que eu te fiz na sexta-feira? - Ela constatou, recuperando o fôlego. Assenti, balançando a cabeça. Melhorei minha postura, abri um sorriso confiante, e soltei:

- Oi!

Começamos a conversar. Aos poucos fui me sentindo a vontade para relaxar os músculos tensos, mudar de postura, gesticular. Era uma sensação ainda nova e insegura de naturalidade, da qual eu ainda precisaria aprender a desfrutar. E nada do meu pai chegar. Me surpreendi quando nosso diálogo passou a fluir como se fossemos amigos de infância. Falamos sobre vida após a morte, universo, extraterrestres, hipnose, inteligência artificial, dragões, e sobre nossos planos para o futuro. Nossa empolgação era claramente recíproca e quanto mais fundo mergulhávamos naquele momento, mais arrependimento sentíamos por não termos nos aproximado antes. O tempo voou. Fomos interrompidos pela passagem da Dona Cidinha, a professora de matemática e mãe de Isabela, que desceu os degraus da saída sem dizer uma só palavra após o término de seu expediente. Isabela despediu-se de mim com um beijo no rosto - um gesto rotineiro para ela, que quase me paralisou com um pânico estranhamente agradável.

- Amanhã a gente conversa mais! - Disse ela, e desceu os degraus na direção do carro da mãe.

Em casa, conversei com ela nos meus pensamentos como já fizera centenas de outras vezes. Mas agora era diferente. A fantasia não era mais um ensaio, e nem um cenário absurdo ou impossível. Era um diálogo agradável, provavelmente a continuação dos assuntos da escadaria. Até pouco tempo atrás, havia uma voz dentro de mim que me convencia de que qualquer tentativa de me aproximar dela resultaria em um desastre. Bem, minha aproximação não foi exatamente uma obra de arte, mas o que importa é que Isabela gostou. E essa voz pessimista na minha cabeça agora estava calada, silenciada pela minha nova noção da realidade. Uma realidade em que eu era finalmente capaz de conversar com alguém sem minhas mãos suarem. E não era qualquer "alguém".

Agora eu precisava me adaptar com as mudanças que vieram junto com a minha proximidade de Isabela. Eu era forçado a dividi-la com seus velhos amigos - os 'acotoveladores arrogantes'. Nem todos eram desagradáveis. A Ariane, por exemplo, era a única que não empinava o nariz ao passar por mim. Ruiva, magricela e com o cabelo sempre armado, ela era bem humorada e acompanhava Isabela onde quer que fosse. O outro que me tratava bem era o Lucas. Negro, com a cabeça raspada e óculos de armação fina. Tinha um ar intelectual e não disputava a atenção dela como os outros. Era um aluno focado e educado que sentava perto de colegas interessados em estudar. Eu até que gostava do Lucas.

Certa vez reparei na conversa de Isabela com alguns de seus amigos. Ela os tratava com uma educação impecável, mas os assuntos eram tão vagos: roupas, shopping center, marcas, grifes, pessoas famosas. Que graça ela vê em toda essa chatice?

- Ela tem uma necessidade de ser popular, né? - Disse Lucas, tomando cuidado para que só eu pudesse ouvi-lo.

- Como assim?

- Olha pra ela. Dá pra ver que nem curte esses assuntos, mas parece que ela precisa administrar a popularidade. Todos tem que gostar dela, daí ela fica agradando todo mundo de maneira artificial.

Como ele ousa falar assim dela?

Mas ele tinha razão. Comecei a reparar que ela não só alongava exageradamente assuntos entediantes para agradar a roda de amigos, como também procurava se reaproximar de outros colegas com os quais não conversava há algum tempo - mesmo que para isso precisasse aturar horas de mais conversa entediante. Sempre se sentava em cadeiras diferentes na sala de aula, parecendo ministrar doses de atenção suficientes para reacender amizades enfraquecidas pela pouca distância. De qualquer modo, comigo era diferente - nada de diálogos forçados e sem conteúdo.

Aliás, passamos a nos ver com cada vez mais frequência. Quando meu pai se atrasava, lá estávamos novamente, juntos na escadaria da saída. Seguíamos com a mesma afinidade, mas nossa proximidade aumentava. Fisicamente, inclusive. As vezes ela se deitava com a cabeça apoiada na minha coxa. Ou eu me sentava em um degrau abaixo do dela na escadae ficávamos conversando de perto, pernas e braços entrelaçados em posições surpreendentemente confortáveis, enquanto eu sentia seu perfume e recebia algum afago nos cabelos. Ela era assim, cheia de toques, massagens despretensiosas nos ombros, pequenas demonstrações de carinho a todo momento. Uma espontaneidade que eu invejava, mas não era capaz reproduzir com a mesma naturalidade por culpa da minha própria timidez.

Houve uma manhã em que a professora de matemática não apareceu na aula.

- Minha mãe não estava se sentindo bem quando acordou. - Explicou Isabela, desfazendo um sorriso quando um professor substituto entrava na sala de aula.

O professor Rogério era um homem corpulento. Tinha a cara arredondada, e vastas entradas subindo-lhe na testa, que o faziam parecer mais velho do que ele realmente era. Como substituto, ele poderia perfeitamente sentar-se à mesa e ler um livro, deixando seus alunos a vontade para dormir, contar piadas ou ouvir música durante o período da aula. Ninguém se importaria. Ele não sofreria consequência alguma, e os alunos certamente ficariam mais satisfeitos.

Mas talvez ele fosse frustrado por não conseguir um emprego de maior relevância, e por isso tentava mostrar serviço com ideias inovadoras, com as quais ninguém realmente se importava.

- Vamos separar a sala em duas turmas. Essa metade - Disse ele, gesticulando como um maestro regendo uma orquestra, dividindo a sala ao meio com os braços peludos - vai para a biblioteca. Vocês tem 50 minutos para vasculhar os livros a respeito de 'Globalização e Países de Terceiro Mundo'. Será a mesma matéria que eu aplicarei para a outra metade da sala, que deve permanecer aqui comigo. Depois vocês voltam para descobrirmos qual turma absorveu mais conteúdo da matéria.

Isabela estava sentada à minha esquerda. Estávamos exatamente no meio da sala, de modo que fomos separados pelo gesto dos braços pesados do professor.

- Vamos, essa metade toda de pé, já pra biblioteca. - Disse ele, forçando os alunos a saírem de seu estado de apatia.

A metade da esquerda se levantou. Se eu pudesse escolher, preferiria não me separar de Isabela, mas 50 minutos sem ela não estragariam meu dia. Mas então, eu notei seu olhar. Enquanto caminhava em direção à porta junto com metade da turma, Isabela virou-se para trás e me lançou um olhar penoso, como se aquela breve separação lhe fosse incrivelmente dolorosa.

Ela parecia querer esticar as mãos em minha direção, em um gesto dramático, como se fôssemos um casal apaixonado sendo separado para sempre. Eu mesmo a teria olhado daquele jeito se desfrutasse de maior autoconfiança.

Retribuí com um olhar idêntico, mas incluí um sorriso que escapou sem querer, pela ternura que me envolveu ao imaginá-la triste por se afastar de mim.

A porta se fechou. Palavras gordas começaram a se arrastar para fora da boca do professor Rogério, mas agora eu estava obcecado demais para escutá-las. 'Ela não queria se afastar de mim! Como será que me olharia se eu aparecesse de surpresa na biblioteca, me juntando à outra metade da turma?' As ideias começaram a trabalhar em minha mente, tentando prever consequências como se planejasse o movimento de uma peça num tabuleiro de xadrez.

Eu devia ter me levantado ao mesmo tempo que ela. É claro que eu seria o único a ficar de pé do lado direito da sala, mas aquele certamente teria sido o momento ideal para escapar da atenção do professor. Com toda aquela gente se erguendo ao mesmo tempo, eu provavelmente passaria despercebido, e se por acaso fosse flagrado, bastaria alegar que eu havia me equivocado e me sentar de novo. Mas naquela hora eu não tinha como saber que Isabela me avisaria com os olhos que queria ficar perto de mim.

Erguer o braço e pedir, em voz alta, para ir para a biblioteca, estava fora de cogitação. Se eu não encontrasse uma forma discreta de fazer isso, preferia não fazer. té mesmo chamar o professor para uma conversa em particular já chamaria atenção o suficiente para me causar arrepios. Ademais, o professor provavelmente negaria meu pedido. Eu podia ouvi-lo respondendo, em voz baixa: "Escola não é para isso, meu jovem. Cumpra com a atividade que eu passei e daqui a 50 minutos você se reencontra com a sua namoradinha.".

Eu poderia ir ao banheiro. Depois de sair, entraria na biblioteca ao invés de voltar para a sala de aula. Mas se o professor notasse minha falta isso me traria alguma dor de cabeça. E talvez ele acabasse descobrindo a minha intenção, e revelando para toda a sala só para me envergonhar.

O jeito seria sair sem o professor perceber. "Eu preciso distrair sua atenção. Mas como?".

Não levei muito tempo para encontrar a resposta e por o plano em prática. Me levantei da cadeira enquanto amassava uma folha do caderno. Mostrei a bolinha de papel na mão e o professor anuiu com um gesto de cabeça sem interromper sua fala, enquanto eu caminhava na direção da lixeira. Passei encostando na mesa, perto da lixeira, e afanei discretamente, em um movimento rápido, o controle remoto do ar condicionado, guardando-o no bolso da calça. Joguei a bolinha de papel na lata e voltei para o meu lugar. Eu estava bastante apreensivo, mas notei que ninguém me observava e deduzi que fui suficientemente discreto.

Ao me sentar, acionei os botões do controle baixando a temperatura da sala em alguns graus. Eu sabia que isso não incomodaria um homem daquele tamanho - sua testa já colecionava incontáveis gotículas de suor. Mas as alunas mais magras, sentadas nas fileiras da frente da sala de aula, não tardariam a protestar.

Não levou mais que 5 minutos. Três meninas se uniam em uma reclamação ostentando os pelos arrepiados de seus braços, e o professor Rogério começou a procurar pelo controle remoto do ar condicionado. Felizmente o aparelho não possuía nenhum ajuste manual, e logo ele deduziu que precisaria procurar por um controle idêntico em outra sala de aula.

Saiu pela porta e virou-se para a esquerda, entrando na primeira sala de aula logo ao lado da nossa. Voltou segundos depois, apontou um controle para o aparelho de ar condicionado e ficou apertando botões em vão, até admitir para si mesmo que aquele controle não serviria, e que teria que procurar por outro, em alguma sala de aula mais distante - exatamente como eu previra. O controle remoto já ficara desaparecido por outras ocasiões, e já se sabia que a próxima sala de aula com aparelho de ar condicionado idêntico ao nosso, ficava há pouco mais de 50 metros de distância.

Quando ele saiu da sala pela segunda vez, dois ou três alunos se levantaram e o murmúrio que já havia se instalado desde o início tornou-se mais alto. Quase todos conversavam, alguns faziam piadas aleatórias. Me levantei e caminhei com outra bola de papel amassado na direção da lixeira, olhei para a sala de aula para confirmar que ninguém voltava qualquer atenção especial para mim, soltei a bolinha no lixo e saí casualmente da sala olhando para os lados. O professor entrava em uma sala mais distante, e tive tempo de fazer uma curva no corredor antes que ele aparecesse novamente. Fácil, pensei.

Na biblioteca, grupos de alunos estavam acomodados em volta das mesas de madeira - eram mesas pesadas, antigas, feitas de carvalho envernizado, brilhantes, com cheiro de lustra-móveis. Encontrei Isabela e me sentei ao seu lado sem dizer nada.

Ela abriu um sorriso e me abraçou.

- O que você está fazendo aqui? - Perguntou, junto ao meu ouvido.

- Arquitetei um plano de fuga altamente complexo. - Respondi, com bom humor, e o sorriso que recebi foi minha recompensa.

Os alunos conversavam em voz baixa sobre qualquer assunto que não estivesse relacionado com a Globalização e os Países do Terceiro Mundo. Isabela deu atenção ao grupo, conversando sobre futilidades. Depois de alguns minutos, me desliguei daquela realidade e mergulhei em meus próprios pensamentos. Foi quando senti seu toque nas costas da minha mão, por debaixo da mesa, sem que ninguém percebesse. Virei a palma da minha mão para cima, em um gesto receptivo, e entrelaçamos nossos dedos sem dizer uma palavra. Ela participava da conversa de forma vaga e evasiva, enquanto acariciávamos nossas mãos em segredo. Era um contato inocente, carinhoso, com discretas trocas de olhares cheias de cumplicidade. No resto do dia, nada mais foi intenso e especial como este momento.

Ao chegar em casa, fiz um pedido ao meu pai.

- Tem como você não me buscar amanhã?

- Por que? Vai ficar até mais tarde na escola?

- Não - respondi meio sem jeito - É que eu combinei com uma amiga. Amanhã nós vamos caminhar até a casa dela e depois eu volto pra casa de ônibus.

- Hum. Amiga? Sei... - Disse meu pai com um sorriso. Depois concordou:

- Tudo bem, mas tome cuidado. E procure não chegar muito tarde.

Era uma longa caminhada. Muitas subidas tornavam o percurso exaustivo, deixando-nos calados e ofegantes por vários minutos. O sol forte deu uma trégua, aliviando a temperatura com as sombras de pesadas nuvens negras que começaram a envolver o céu. Ventos frios amenizaram o calor da caminhada, anunciando a chegada de uma chuva que começaria a qualquer instante. Mas não nos preocupamos. Pelo menos eu não me incomodava com a ideia de andar na chuva ao lado dela - o que, talvez, tornasse o momento até mais interessante.

Caminhamos pelas calçadas quase vazias, com poucos pedestres, pois os bairros do caminho eram afastados do centro da cidade. Eram bairros residenciais, com muros altos com arame farpado ou cercas eletrificadas no topo. Em alguns momentos nossa fala era atrapalhada pelos latidos de cães que vinham correndo com agressividade até o portão das casas quando passávamos. Andávamos sem pressa, chutando pedrinhas, arrancando folhas de pequenas árvores que balançavam com força no vento forte.

Depois de uma hora e meia de caminhada, chegamos na frente da casa de Isabela. Os muros altos eram de cor cinza claro. Os portões com abertura elétrica eram marrons, com grades horizontais, e davam para uma garagem com espaço para dois carros. Uma árvore na calçada projetaria uma sombra convidativa na calçada, se o tempo já não estivesse nublado. Havia uma porta de metal para pedestres no muro, com grades que combinavam com as dos portões da garagem. Através das grades, dava para ver a casa dela, que parecia um pouco maior do que a minha. Janelas amplas com cortinas de cor clara, paredes bejes, uma pesada porta de madeira na entrada.

Isabela apoiou as costas no muro sob a sombra da árvore, e retomamos o fôlego do trajeto conversando em tom de despedida. A brisa fresca terminou de secar o suor de nossos rostos, e depois de alguns minutos, nos despedimos. Mas ela parecia querer prolongar aquele momento tanto quanto eu, porque ao invés de entrar em casa, ela segurava o portão aberto enquanto continuávamos alongando a conversa até o assunto acabar completamente, em um silêncio desconfortável.

- Bom... Acho que agora é melhor eu entrar. - Ela disse, e eu sorri quando senti uma ponta de tristeza em sua voz.

Ela veio me dar um beijo no rosto, mas recomeçou um novo assunto pela segunda, talvez pela terceira vez. Mas dessa vez eu não consegui prestar atenção. Estávamos bem perto um do outro, fiquei olhando sua boca enquanto ela falava, eu me sentia paralisado. Quando ela interrompeu a fala subitamente, eu me dei conta: ela fazia a mesma coisa.

Nos aproximamos ao mesmo tempo, meu coração nem teve tempo de acelerar, e nos beijamos pela primeira vez. Fechei meus olhos a princípio, mas concluí que queria registrar aquele momento com todos os meus sentidos. Abri novamente os olhos e vi seu rosto colado no meu, nossos lábios se tocando em um movimento quente, suave, recíproco. Ajeitei uma mecha de seus cabelos para trás da orelha em um gesto espontâneo que me surpreendeu, e ela também abriu os olhos. Ficamos ali, nossos olhos sorrindo numa troca de carinhos que desejei que não terminasse nunca.

- Tchau - Ela falou, com um olhar doce. Os lábios ainda encostados nos meus.

- Até amanhã. - Eu disse.

Ela entrou e fechou o portão. Eu a vi caminhar até a porta da frente e lançar um beijo no ar na minha direção antes de entrar. Sozinho do lado de fora, saí de baixo da árvore dando alguns passos na direção de um ponto de ônibus, e parei. Apoiei as costas ainda no muro de sua casa olhando para o céu nublado, bem escuro, com suas nuvens baixas. Fechei os olhos. Ouvi um trovão, e os primeiros pingos de chuva caíram, gelados, escorrendo pelo meu rosto.

Passados poucos segundos, já caía uma chuva torrencial. Eu estava ensopado, mas ainda sorria, flutuando depois do beijo. O ruído da água batendo no asfalto era tão intenso que abafou os gritos de Isabela. Eu nem desconfiei. Só ficaria sabendo meses mais tarde que, naquele momento, a poucos metros de distância de mim, Isabela era violentamente espancada pelo próprio pai.

Published at : 13-01-2018
Category : Short story