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- Melodramático Romance de um Casal de Orelhões

Melodramático Romance de um Casal de Orelhões

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Arnaldo era um orelhão bonito. Pintado de azul celeste e detalhado por um grande logo de uma empresa telefônica. Por dentro estava praticamente intacto, prateado como uma espada, brilhante como uma joia. Sabrina obviamente notava isso, desde o dia em que foi instalada, do outro lado da calçada, não tirava o olho do rapaz. Ela por sua vez não era nada de mais, pelo menos era o que a própria achava. Era verde-limão, mas já tinha pedaços desgastados pelos intemperismos da vida e por um pombo mal educado que insistia em fazer suas necessidades em cima dela. Apesar de não ter olhos ela observava o orelhão, via figuras importantes entrando e saindo de sua estrutura. Eram telefonemas urgentes, emocionantes, únicos. Já os dela... Eram de sujeitos mal cheirosos ( e acreditem, ela sentia o cheiro) e que falavam gritando, como que só ligassem para brigar com quem os atendia. Arnaldo conseguia vê-la também. Desde o dia em que ela foi instalada ele não tirava o olho da moça. Logicamente, tomava todos os cuidados para que ela não olhasse para ele no exato e fatídico momento em que ele olhava para ela. Ocorreu três vezes, não podia negar, mas foram três momentos rápidos e ambos logo desviaram o olhar. Ele achava que Sabrina era o ser mais fascinante que já tinha visto, ela era autêntica. Não ligava se estava com tinta desgastada e se tinha adesivos colados em toda sua estrutura. O que ele mais gostava nela era uma pichação, um A de Anarquia em tinta preta estampava o seu verdadeiro logo. Claro que isso era apenas o que eles achavam um do outro. Uma vez, depois de uma tarde muito chuvosa, a luz caiu. Sabrina entrou em pânico pois não mais ouvia o eterno barulho do telefone dentro dela, olhava nervosamente para Arnaldo e imaginava se este também estava sem energia. Quis gritar. Falar com todas as suas forças o quanto amava o orelhão do outro lado da rua, amava-o sem nunca ter falado com ele. Amava-o como se o seu corpo necessitasse do corpo de Arnaldo para estar completo. Amava-o mesmo que o próprio amor seja impossível para um simples orelhão de rua. Se caso fosse perguntada por algum dos sujeitos que vinham telefonar em sua cabine por que amava tanto Arnaldo diria que apenas o amava, sem mais nem menos. Arnaldo não sabia o que era o amor. Em sua cabine nunca houvera um simples telefonema de amor, de um jovem apaixonado com um buquê de flores em baixo do braço ou de uma senhora de meia-idade com o lápis de olho borrado pelas puras lágrimas de um verdadeiro amor. Porém, mesmo sem saber de nada disso, tinha para ele que Sabrina era o orelhão com quem ele gostaria de, se possuísse pernas, ir ao cinema. Sim, sabia o que eram cinemas, lembrava-se bem da vez em que um pai convidou o filho para ir assistir... “Como era o nome do filme?” Pensou Não importava para ele, era um bom filme e ele sentia isso. Era um bom filme para levar o orelhão que o fascinava. Claro, ele não sabia que seu nome era Sabrina, e ela tampouco sabia que Arnaldo se chamava assim pois tinha sido o primeiro nome que o orelhão ouviu e também o mais bonito. Sabrina sabia que o amor era como um passarinho, um pintassilgo ou um tiê-sangue. Um passarinho muito bonito, leve e de bico fino. Era perfeito, era maravilhoso, assim como um homem que vez ou outra vinha em sua cabine falar sobre detalhes de passarinhos. Era biólogo e assim como amava passarinhos em todos os detalhes, ela amava todo e qualquer detalhe de Arnaldo, ele era perfeito como era, não queria que ele mudasse ou fosse de outra forma. Inclusive não entendeu quando uma moça pedia aos prantos para que seu namorado, do outro lado da linha, fizesse isso, se era para amar alguém era para amar como ele é. Desesperados com a falta de luz e a chance de serem completamente desligados, os orelhões regozijaram ao ver um técnico de blusa azul surrada pelo tempo chegar em seu uno branco. O uno tinha uma bela escada vermelha em seu teto, escada que foi utilizada para chegar no disjuntor. Concertou a máquina com maestria, em pouco tempo a luz no bairro todo voltou e os orelhões puderam respirar aliviados. Entretanto, quando respiraram ouviram um certo eco em suas respirações. Depois se assustaram e viram um eco em seus sustos . -Tem alguém aí?- Disse Arnaldo, na linguagem que sabia ( resumidamente alguns Beeps curtos e outros beeps longos) Sabrina congelou-se, os beeps de Arnaldo ecoavam por todo seu corpo e abalavam todas suas estruturas. -S..sim, eu estou aqui, do outro lado da rua. Agora era o pobre Arnaldo que perdeu a voz, não sabia mais se mandava um beep longo ou um curto e decidiu por não mandar beep algum. -Meu nome é Sabrina, e o seu? Suas suspeitas se concretizavam, ela era de fato uma orelhão de muita atitude, olha só como falava sem tremer a voz. E como era bela a voz de Sabrina... Era como um velhinho tinha dito, como um tipo de comida que fugia sua memória. -Você gosta de mel?- Arnaldo disse, pensando alto e falando a coisa mais aleatória possível -Gosto!- Sabrina respondeu sem graça, pois era tão boba e desinteressante que sequer sabia o que era “mel” -Desculpa, meu nome é Arnaldo, e o seu?- Depois de um milissegundo percebeu que já sabia o nome dela e se corrigiu- E o seu é Sabrina não é? -É. -Eu adorei o... O A de anarquia que tem no seu orelhão. -Obrigada! Eu gosto muito da sua cor verde-limão. Ele não sabia o que era verde-limão e ela nem sonhava no que fosse anarquia. Os dois se completavam. Sabrina ficou nervosa, Arnaldo era muito inteligente e falava coisas que ela sequer entendia. Arnaldo ficava sem palavras toda vez que Sabrina era espontânea e dizia algo que realmente pensava, diferente dos falsos seres humanos que frequentavam sua cabine e apenas ligavam para os outros para inflar o próprio ego e cumprir a missão de bons cidadãos que gostam da família e ligam quase sempre que dá. No decorrer das semanas os dois não pararam de se falar. Quanto mais o tempo passava, mais um ia percebendo que na verdade a imagem que tinha do outro era só uma imagem. Não que orelhões sejam bons em compor imagens, mas por mais simples que eram estas, não condiziam com a realidade. Os problemas no paraíso do casal iam mais fundo, Sabrina tentava ensinar a Arnaldo o que era o amor, mas o rapaz não dava ouvidos ( mesmo sendo um orelhão) e se chateava pois via a moça que ele julgava ser tão original repetindo discursos que este já ouvira muitas e muitas vezes. Como era a fundamental lei da natureza, eles se adaptaram um ao outro. Aprenderam a conviver e a aceitar os defeitinhos simples e os grandes também. Assim descobriram qualidades que ambos sequer podiam imaginar, evoluíram como casal e no dia em que Arnaldo pensou em pedir Sabrina em namoro houve uma chuva. Uma chuva torrencial inundou a região. Diversos eletrodomésticos foram abalados e um gato cinzento ficou ilhado em uma tábua, flutuando pela rua. O telefone de Arnaldo sofreu sérios danos, irreparáveis pelo que dizia o técnico de orelhões. Foi substituído e, apesar de já estar com todos seus fios queimados disse, em beeps longos e curtos, uma última mensagem para sua amada. -Queria ter dito que te amava. Um mês se passou e o espaço onde antes Arnaldo morava foi reutilizado por um novo orelhão, de nome ainda não definido. A linha utilizada por Sabrina para falar com seu amado ainda funcionava, então ela tratou de dar as boas-vindas ao recém chegado. Ele era uma folha em branco, de nada sabia e sobre nada pensava. Era perfeito para ser moldado como Sabrina quisesse, era uma chance perfeita de criar sua alma gêmea. E assim ela fez, depois de anos juntos os dois decidiram ( ou ela decidiu pelos dois) se casar. Mas, nas noites mais frias do inverno, quando seu esqueleto ficava fraco e sua mente trabalhava um pouco menos no automático ela se entristecia. Lembrava-se de como era ter um relacionamento verdadeiro e imperfeito, repleto por altos e baixos como uma montanha russa. Era quase como se pudesse andar, era mágico e aterrorizante. Era, sem dúvida alguma, o amor.

Published at : 12-02-2018
Category : Short story