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- P.S.: TEXTO SUJEITO A MUDANÇAS

P.S.: TEXTO SUJEITO A MUDANÇAS

Autoanálise

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A metade da noite foi há oito minutos. Foi-se o solstício de verão, foram-se as mudanças por fazer, as relações inconclusivas. Foram-se todos eles, os momentos que poderiam ter sido e realmente foram-se em si mesmos, e sem mim. E eu? Eu fiquei; entregue a meu chá, meu teclado e meus pensamentos. A fria tela, agora aquecida pela energia que por ela flui, fornece a única luz que tento jogar sobre minha vida. Sem conseguir definir a trilha sonora, resolvo refletir no silêncio enquanto minha visão periférica observa disfarçadamente o reflexo no espelho. Quem é a quase mulher de cabelos curtos e não totalmente castanhos, de batom cor de vinho e olhos já cansados que me encara e faz mil caretas e poses, como criança distraída no provador de uma loja qualquer? Analisando-a, mesmo que superficialmente, vê-se que no fundo do ser, é ainda uma menina (menina de tatuagem e unhas roxas, mas vá lá), e mantém seu coração ainda infantil escondido de qualquer local arejado, para que não tome friagem e adoeça com os males desse mundo adulto. Quem é ela? Se eu a visse num aeroporto, numa rua movimentada, na sala de espera do hospital, que diria sobre ela nos meus jogos individuais de adivinhação? Será que, se eu encontrasse comigo sem engajar numa espécie louca de solilóquio em dupla, conseguiria ver através da capa, percebendo o lampejo de dor no fundo de meus olhos que em alguns dias parecem não mais brilhar? Ou faria qualquer leitura rasa e de mau gosto? Talvez nem me interessasse analisar nada, o raso talvez me bastasse. Sem problemas, pois jamais me julgaria por não passar da superfície, muitos me conhecem há tanto tempo e ainda não o fizeram. Nem o farão; já disse, foram-se. Acabou meu chá, sem mais distrações. E agora? Nada salvará das precárias filosofias de madrugada, do texto que fica mais e mais pobre a cada linha, vítima do sono, maior ladrão do artista. E vem a pergunta, a tão temida pergunta que evito durante trezentos e cinquenta dias do ano, e que me absorve nos quinze restantes. Quem sou eu? Cheguei à conclusão de que, como aquele que estampa a camiseta que uso neste momento, sou Camaleão. De mudanças estou cheia, todas elas em teoria bem organizadas e planejadas, com ares leves de acaso; porém alguns acidentes de percurso fizeram profundas alterações em mim nos últimos sete dias, e ainda estou tentando me adaptar à fusão de cores da paisagem. Como o camaleão, também sou criatura de hábitos: coisas simples como uma xícara de café preto, um prato específico no restaurante ou a maneira de comer um pão de queijo. Há dias tento arranjar uma desculpa para falar sobre sinapses. Como estou tentando definir minha existência, e sou, antes de tudo, um conjunto delas, finalmente encontrei. É que comecei a notar o poder do cérebro quando resolve funcionar como máquina do tempo: primeiro com uma bebida que me levou à tarde em que assisti o final do filme “Donnie Darko” que consiste no clipe de uma de minhas músicas favoritas, depois o perfume de algumas noites acompanhada, o antigo toque de despertador que me faz voltar à época em que toda a manhã era uma tortura, o chá mate que, de alguma forma, tem para mim cheiro de pão com manteiga. As lembranças boas e os pesadelos não são parte do que sou, e sim o contrário: eles são o meu todo. Sou eu, assim feita por significados e seus significantes sentimentos. Sou a promessa de que mudaria quando cortasse meus cabelos e a surpresa por descobrir o quanto já havia mudado nos dois dias anteriores ao evento, sou o aprisionamento de minhas mazelas dentro do ponto e vírgula entre as camadas de minha pele. Sou a vida de meus pais na vida de meus avós, na vida de suas próprias genealogias; sou agora a dispersão em pessoa, esquecendo por sono a frase crucial desse texto. A garota no espelho me olha curiosa. Durante todo esse texto, transcrevi minha impressão sobre ela, sua vida, suas lutas. Pergunto-me agora o que ela deve pensar de mim. Será que se questiona tanto como eu ou simplesmente faz sua função de me refletir sem refletir sobre o assunto? Isso fica para uma parte dois. Agora devo dormir. P.S.: Talvez eu ainda altere as palavras acima, afinal tudo pode mudar.

Published at : 04-03-2018
Category : Articles and Opinion