Diário de Patt

Onde tudo começou

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– Até mais, Patt. Não se esqueça de mandar notícias. – Disse Cézar depois de me dar um abraço bem apertado.

¬– Até mais, Cézar. Pode deixar, eu mandarei. – Respondi.

Com a mala nas mãos, pronto para viajar de férias, dou uma última olhada para as pessoas que estão na rodoviária, respiro fundo e entro no ônibus azul marinho. Escolho uma poltrona que se localiza no meio do corredor, sento-me e fecho os olhos. Antes que o ônibus dê a partida, coloco minha mala na poltrona ao lado e rezo para que ninguém queira dividir a fileira comigo.

Assim que o motor é ligado, o ônibus começa a tremer e sinto meu estômago se contorcer dentro de mim. Algumas pessoas ainda estão entrando, a cada cheiro de perfume diferente, meu estômago se embrulha e tenho que me segurar para não vomitar. Não sei se extrapolei na tequila na noite de ontem ou se estou passando mal por não ter bebido há mais de três anos.

Assim que o ônibus sai da rodoviária, fecho meus olhos com força e me seguro na poltrona, sento-me como se estivesse andando por uma montanha russa, mas é somente impressão causada pelo meu mal estar.

Meu Deus, que tontura! Depois de alguns minutos abro os olhos novamente. Tento relaxar para começar a refletir sobre os acontecimentos de ontem. Na verdade, antes de chegar a esse ponto, preciso fazer uma breve análise da minha vida nos últimos anos...

Hoje estou com 24 anos, acabei a faculdade há quase dois anos, minha média geral foi uma das maiores da história do curso de Letras, tenho um lattes de dar inveja para qualquer pessoa da minha idade, ou até mesmo para pessoas com mais idade. Consegui um ótimo emprego logo após terminar a graduação, na verdade, tive a chance de escolher entre duas editoras que me ofereceram as vagas.

Muitas coisas boas aconteceram desde o começo da graduação, mas, também, muitas coisas boas deixaram de acontecer. Passei a graduação inteira fazendo estágios extracurriculares, iniciação científica, apresentando trabalhos em congressos, horas enfurnado na biblioteca, sempre me esforçando para ser o melhor!

Penso que na vida profissional até consegui o que sempre sonhei, mas a realidade é que a vida não é só feita apenas de trabalho e o lattes não define quem você é. O problema foi que ninguém me avisou sobre isso...

Deixei muita coisa passar sem que eu pudesse aproveitar... Festas da faculdade, baladas, barzinhos, amizades, paqueras, sexo casual, matar aulas, dentre outras coisas comuns que todo jovem da minha idade poderia ter feito ou ainda faz. Anos sem me divertir, sem extravasar, sem me permitir...

O motorista dá uma freada para estacionar ônibus na primeira parada e meu estomago dá um sinal de alerta. Fecho os olhos e finjo que estou dormindo, faço mais cinco minutos de reza para que ninguém se sente ao meu lado. Por sorte, quando abro os olhos, reparo que já estamos novamente na rodovia e o banco ao lado continua vazio.

O reflexo do sol cegaram meus olhos por alguns segundos. Então, resolvo colocar os óculos escuros e ouvir música. Começo a procurar alguma música na lista do iPod, preciso ouvir qualquer coisa que seja bem animada, para tentar descontrair. Clássicos, clássicos, música depressiva, melancólica, mais clássicos... Ah, sabia que um dia essa música iria ser ouvida novamente, ainda bem que não apaguei! Apertei o play na música Sparks da Hilary Duff.

A música me fez lembrar novamente da noite anterior. Sim, a noite anterior! Mas antes de chegar a este ponto, preciso voltar a fazer outra breve análise da minha vida, desta vez, minha adolescência...

Passei os três anos do ensino médio me esforçando para passar nos exames finais, muitas recuperações, muitas notas vermelhas, pouca frequência nas aulas, muitos “namorados”, muita bebida alcóolica, muitas fugas de casa, muito desgosto para a minha família e pouco juízo, ou melhor, pouquíssimo juízo!

Se havia alguma festa durante a semana eu, com toda certeza, estaria lá e além de ser o centro das atenções, seria também o alvo dos comentários no dia seguinte. Quanto mais falavam de mim, mais eu dava motivo para falarem. Sei que isso pode ter sido consequência de uma grande carência afetiva, mas não fazia nada para mudar a situação, pelo contrario, cada vez mais armava um circo maior.

Minha família sempre foi muito religiosa, mas não era isso que me incomodava, era o julgamento que eles faziam sobre mim sem realmente saber o que eu sentia, sem me dar a atenção que eu precisava...

Nesses anos de leitura que tive enquanto trabalhava na editora, li um livro que me marcou muito por causa de uma frase. O livro se chama Comer, Rezar e Amar e a frase é a seguinte “Preciso de mais atenção do que trigêmeos prematuros”. Sério... Essa é a frase de minha vida!

A farra da adolescência acabou quando resolvi encher a cara na véspera de natal na casa dos meus tios. Levei um “amigo” comigo, perdi o controle total e esfreguei na cara da minha família que eu e este meu “amigo” estávamos nos relacionando.

Eu achava que estava arrasando, mas não. A relação com o “amigo” acabou na mesma noite, pois ele achou que eu era um louco por ter feito aquilo, foi embora na mesma hora, me deixou falando sozinho. Depois de ter notado o que estava fazendo, resolvi sair correndo da festa...

Não voltei para casa tão cedo, esta foi a última vez que fugi, fiquei uma semana sem dar notícias, dormi cada dia na casa de um amigo, eles até disputavam para ver quem seria o próximo a me hospedar, mas eu sabia que a intenção não era me ajudar, mas sim se autopromover às minhas custas...

Durante a semana que passei fora e tive que conviver com toda essa falsidade, refleti bastante em relação a tudo o que estava acontecendo. Decidi voltar para casa e dar um novo rumo para minha vida! A melhor coisa que eu poderia fazer era me afastar desse circo de horrores que eu mesmo criei.

Por causa de minha adolescência, muita gente jamais acreditou que eu chegaria até aqui, ainda mais fazendo todas essas conquistas. Nem eu mesmo achava que isso seria possível, mas consegui e agora todos terão que me engolir!

Ah, foi ao relembrar da minha adolescência que resolvi aceitar o convite que minha amiga Bianca fez há alguns dias atrás. Ela me convidou para ir à boate gay da cidade. Acabei aceitando o convite, depois de muita insistência. A última vez que fui a uma boate foi quando eu ainda estava no colegial, nem 18 anos eu tinha, entrei com o RG falso.

Um pouco antes de ir para a festa, que foi na noite de ontem, decidi dar uma mudada no visual e me arrumar um pouco mais. Troquei a calça social por uma jeans skinny, blazer por uma camisa xadrez azul marinho, o sapato social por tênis, os óculos de grau por lentes de contato, o perfume mantive o mesmo, mas tirei toda a barba. O cabelo castanho que vivia penteado para traz e lambuzado de gel, agora estava todo despojado, às vezes até a franja caía sobre o meu rosto.

Ao chegar à festa me senti um pouco deslocado, mas tentei agir naturalmente e curtir a noite. Conversa vai, conversa vem, vários shots de tequila e os copos aumentavam cada vez mais sobre a mesa. Eu já estava um pouco no grau quando alguém me cutucou.

– Patrick? É você? – Disse o moço alto com barba por fazer, o que destacava ainda mais seus grandes olhos castanhos.

– Oi, o que você está fazendo aqui? – Digo com os olhos arregalados quando noto que quem está falando comigo é Cézar.

– Eu também tenho direito de aproveitar quando não estou na editora... – Diz ele.

– Não sabia que você frequentava esses lugares...

– Eu não frequento, é a primeira vez! Mas, quer saber, digo o mesmo sobre você... Na verdade, nunca te vi fora da editora... E você está tão... Diferente! – Ele quis dizer lindo, eu sei.

Sou acostumado a ver Cézar todos os dias no trabalho. Nunca o desejei... Na verdade, acredito que, nesses últimos anos, eu não desejava ninguém, somente os originais que eu recebia para analisar... Tédio vinha sendo meu sobrenome por um bom tempo e nem uma vida social eu tentava manter.

– Vou pegar mais bebida – Disse Bianca quando percebeu que estava sobrando na conversa.

Assim que Bianca saiu de perto, Cézar se aproximou e disse:

- Por favor, não conte para ninguém que você me viu aqui... Não sou assumido! Acho que não estou pronto para isso ainda... – Cara, ele deve ter uns 28 anos, ele está esperando o que?

- Fica tranquilo, seu segredo está muito bem guardado comigo! – Respondi rindo.

Cézar me chamou para dançar. Tentei desconversar, mas a insistência foi grande. Senti-me incomodado quando cheguei ao centro da pista, todas aquelas pessoas enlouquecidas pulando e gritando... Mas quando a música seguinte começou a tocar, meu Deus... A música era Toxic da Britney Spears, um verdadeiro hino da minha adolescência.

Fui sentindo um desejo me dominando. Eu estava pronto para o ataque e na mesma hora sabia que Cézar seria a minha vítima. O estranho foi que me senti um pouco enferrujado quando tentei dar em cima dele. Fui chegando cada vez mais perto, ia começar a falar algo, mas as palavras me fugiram, até que teve uma hora em que simplesmente parei... Eu parecia estar congelado!

Ele ficou me olhando por um tempo, deve ter achado que eu era louco, mas por fim me surpreendeu quando tomou iniciativa e do nada me beijou. Um beijo refrescante com gosto de menta e uma pegada feroz ali no meio da pista, parecia que ele estava esperando esse momento há séculos.

Pouco tempo depois, o fogo entre a gente estava ficando tão quente que ele me convidou para ir até o seu apartamento. Aceitei o convite, estava curtindo ficar com ele. Nós saímos da boate, chegamos ao prédio e ainda não tínhamos parado com os beijos.

Como já estava de madrugada, não tinha mais ninguém nos corredores ou no elevador. Ele foi tirando minha roupa desde o estacionamento do prédio até chegar a seu apartamento. Quando passei pela porta de entrada, estava apenas de cueca e com a camisa xadrez desabotoada, já ele estava apenas de calça jeans, com o zíper aberto mostrando sua cueca branca. Mal entramos em seu apartamento e tudo já estava rolando... Se é que vocês me entendem...

Me pego sorrindo ao me lembrar daquela noite enquanto estava ouvindo música no ônibus. Depois de tantas reflexões, finalmente chego ao meu destino, minha cidade natal. Vim aqui passar as férias do trabalho junto de meus pais.

Logo depois que saio do ônibus, tiro o celular do bolso e digito a frase: “Já cheguei, você não saiu do meu pensamento durante a viagem, beijos”, por fim selecionei o contato “Cézar CHEFE” e enviei a mensagem.

Published at : 01-06-2016
Category : Short story