As interrupções da vida

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Enquanto vivia uma tempestade de dúvidas sobre o que fazer da vida, ela adquiriu a belíssima habilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Era nas tarefas de casa, no trabalho, durante os hobbies – que também não eram poucos -, e o tempo foi passando. Algumas vontades também. Uma delas era a vontade de ser astronauta. Essa era uma atividade que nunca pôde exercer junto com outras, sabia, por isso nunca a exerceu.

Pensando melhor, ela esteve presente sim, naqueles pensamentos que invadem a imaginação enquanto se varre a casa. Mas de lá nunca saiu. Chegou um tempo em que ela passou a acreditar que a vida é assim mesmo, tem coisas que a gente até gostaria, mas não vai fazer. A vida leva a gente pra outro rumo, a culpa é dela, da vida. A gente vai se deixando ser interrompido, respira fundo e a paciência vai aprendendo que este é o ritual pro esquecimento. Vamos passando e colocando na mochila o que estiver ao nosso alcance, se cair caiu, o que ficar ficou. Ah, se não fossem os sentimentos e a consciência, malditos!

Quando ela deita a cabeça no travesseiro, passa aquele filminho do que foi feito no dia e, de repente, aquela imagem do espaço, ela pode sentir a leveza do seu corpo sem gravidade, tão frágil perante toda a imensidão. Os olhos rasos de lágrimas logo são interrompidos por um suspiro. Deixa pra lá, preciso dormir pra vida continuar amanhã.

Published at : 02-07-2016
Category : Poetry and poems